terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Não tem título.

A chuva aumenta a intensidade a cada segundo, a cada gota que desce levemente sobre o telhado, e faz um barulho assustador. O silêncio lá fora me dá medo, porque eu o reconheço. É parecido com o que existe dentro de mim. Por muito tempo, fiquei a observando a luz azul da televisão ligada no mudo, que insistia em me mostrar imagens que eu não prestava atenção. Tiro o sapatos e permito me sentir por alguns minutos. É tempo de retiro, de calma. Há tempo ando muito ocupada, movendo-me como alguém sempre no automático. Vivendo no automático. Sempre me protegendo demais. Talvez esse seja um mecanismo criado para esconder a desordem e insegurança da minha natureza. Sinto que aqui dentro há apenas o vazio. Preciso de foco. Preciso me realinhar. Acender incensos de jasmim ou canela, ouvi uma Bossa calma e leve não me dá leveza. Escrever sobre leveza não me trás ela. Achava que viver era o mesmo que jogar. Você estuda seu adversário, aposta nos relacionamentos com maior possibilidade de dar certo, se torna flexível e se transforma em alguém o mais próximo do que esperam, e assim você evitaria qualquer tipo de sofrimento. Porque depois de alguns tombos você aprende que sofrer é algo realmente ruim. Você vê que o amor não acaba, ele diminui aos poucos e um dia ele se torna tão pequeninho, que é quase imperceptível. Mas a vida é fodida. Você não consegue ser sempre um bom jogador, uma hora as coisas viram, as probabilidades erram, e você se fode. Você cai e percebe que não há muitas pessoas no seu lado, e doí pra caralho. Então você pede uma bebida forte, e espera. Você resolve fingir não se importar, escolhe gostar da solidão. Mas não dá cara, isso é tudo mentira, ninguém gosta de solidão. Ela é a ausência de algo que já foi importante para você. Quando ela está presente é porque há um vazio no seu interior. Solidão é o vazio. Você tenta parecer alguém forte, mas por dentro dá tudo doendo muito, e não adianta não se importar com essa dor. Ela não desaparece. No escuro, quando você tira a mascara, nada mais faz sentido. Você se perde. Você vê que está sozinho. Grita, mas ninguém ouve. Não há ninguém lá fora. Ninguém quer entrar. É preciso aprender a se salvar. Não há mais crianças na casa, e o mundo cobra atitude.  E de repente, você fecha os olhos e deseja de novo ter sete anos. Imagina o sítio da vó. Tenta sentir o calor de um abraço, mas tudo é muito vago. O tempo andou apagando os rostos, os cheiros, os toques. Não adianta fugir de novo, você não tem mais sete anos, está na hora de encarar as coisas de frente. Mas agora, você só está ouvindo a chuva no sofá. 

2 comentários:

  1. Me atormenta pensar que o que você escreve é como uma descrição minha, mas ela não é, isso seria motivo de alívio? Não, porque me sinto atraído a pensar que você está certa, mas isso já deixou de ser doloroso porque depois de um tempo sentindo dor o corpo acostuma, fica dormente e acalma, pode continuar lá te machucando mas seu sorriso não é mais de pierrot e sim de arlequim, e é nesse momento que se vive, que se deixa viver, que mesmo fodido, de coração partido, sem apoio, olha-se para frente no escuro, perdido como você disse sem nenhum lugar pra ir, mas o que importa nessa vida não é ter algum lugar pra ir e sim andar pra tentar encontrar, mesmo na escuridão, mesmo chorando no banheiro enquanto cai água sobre a cabeça, mesmo no desespero o que vale é só andar não importa se é fugindo, não importa se é gritando loucamente pelas ruas =D, isso é simplesmente viver mesmo sem querer, sei lá, queria escrever alguma coisa pra você, mas acho que não consigo mais, acaba o sentido das palavras, é como se escrevesse pra mim, só que esperando que alguém responda ^^'.. desculpa aí todo esse blá blá blá

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  2. Zero, por vezes abri e fechei esta página porque confesso que não sei ao certo o que responder.É como se não soubéssemos o que dizer para alguém que se sente parecido com a gente, que compartilha desta sensação de solidão, dessa coisa que doí, que machuca e que não sabemos o que fazer para melhorar.Depois de um tempo o corpo de acostuma, mas a alma não. Sorrimos, mesmo despedaçados, mesmo com peças faltando porque de certo é isso que esperam da gente. Mas o fato é que não sendo sincero, ao menos com nós mesmos, todo esse sentimento de felicidade e esse tentar viver fodido não se torna apenas uma ilusão?

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