[Como se fosse a primavera, na voz de: Chico Buarque]
Você acorda, olha para o celular e vê que ainda faltam alguns minutos. Tenta fechar os olhos e dormir mais um pouco, não consegue. Fita o teto branco, e você de novo se percebe perdido. É pesado. Lá fora, há poucas luzes acessas. O ritmo ainda não começou, a vida parece sempre demorar um pouco mais para nascer na terrinha do interior. A cafeteira faz seu barulho habitual, e tudo volta a fazer sentido. Quando você encontra algo familiar, perde o medo de se perder dentro de si, e o caminho do quarto até a cozinha se torna de certo modo seguro novamente. Você muda o foco, vê de outra perspectiva. É só o barulho da cafeteira, mas é a sua terceira perna. Ela te faz encontrável por você mesma. Você se segura nela, mas o café é muito amargo. Você engole quente. Duas xícaras, sem açúcar. As coisas parecem fazer mais sentido quando vividas pura. Sempre se há a necessidade de encontrar a pureza, a essência das coisas, dos toques, dos gostos. O café vai perdendo o calor, e o aroma. Você se cansa dele e muda. Neste momento tem medo de se perder novamente, porque se perder é foda. Quando você se perde, encontra algo dentro de si que não conhecia. É assustador. E naquele momento só havia algumas paredes brancas, a sensação de loucura era evidente. As pessoas lá fora se moviam com sua terceira perna, algo que lhe dá segurança. Remete novamente em um lugar comum. Todos odeiam se perdem. Se conhecer. Você se aceita e pronto, não há a necessidade de se tocar. É foda. E assim você é apenas um meio você. Você tem sua terceira perna cara. E quando você perde ela é fodido. Você se acha louco, e lá fora todos parecem bem e você tá ai. Mendigando alguém para te ouvir, não é assim, você não vive de migalhas. É preciso algo inteiro. Calma. Você respira novamente, um inspirar lento para organizar seus pensamentos. Você é louco, todos só sabem falar isso sobre você. As coisas se tornam estranhas, até hoje de manhã eu tinha também minha terceira perna. Eu a tinha até o café. Mas agora eu sou um louco. Um louco lúcido. E todo aquele amor, aquele fodido amor, você percebe então que você também tinha o inventado. Inventou um amor para segurar sua mão. Amor sentimento, eu te digo meu amigo. Ele é inventado para te dar segurança, para culpar algo quando as coisas dão errados. Ninguém vive ou morre por amor, e quando cai não passam do chão. É bom se perder. Quando você joga sua terceira perna fora, você vê que é algo muito maior, e é bom. É heavy metal. Mas não, você é só um cara, sentado no chão e ninguém vai te ouvir. Não te entendem, não insista. Atrás do muro, todos ficam felizes em ter sua terceira perna. Todos gostam de estar seguro. A cafeteira toca de novo, você apenas estava dormindo.
Gabizinha e seus textos fodas sempre não? amei (:
ResponderExcluirBelas pesadas palavras!
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