sexta-feira, 4 de abril de 2014
Ataraxia
Depois de tantos dias em estado de coma - de um não sentir absoluto. Sentia nada, nem fome ou frio, nem alegria ou tristeza. Andava automaticamente seguindo o caminho oposto aos seus sonhos. Foi, durante meses, apenas um zumbi no interior de uma Babilônia de pensamentos confusos. Ora pensava em se jogar da primeira janela e ter um fim lindo, mesmo que trágico, dos poetas que amava, ora insistia que a felicidade era esse viver. Essa alma cigana e sem parada. Esse cinza dentro de mundos coloridos e bonitos. Uma migração constante e uma sequência de passos. A vida era um jogo de xadrez destinado ao fracasso. Tinha dias que ela ouvia o jazz sussurrado por seus demônios. Enfim. Hoje aquele ser de olhos pretos -com lápis machucando cada canto de tantas e tantas vezes usados- se olhou no espelho. Eu sei, caro amigo, que tudo isso parece uma bobagem qualquer, mais um fato do cotidiano banal, mas alguma coisa aconteceu com ela quando se viu com a maquiagem cuidadosamente borrada na frente daquele espelho. Ela, aquele não-ser que parecia que iria se engolir na esquina, que só de a observar me fazia retorcer, se viu sorrindo enquanto observava um pequeno inseto se rebatendo à beira da morte. A luta pela vida daquele inseto que freneticamente movia as pernas enquanto tentava reverter a sua posição dorsal a encantava. Eu a vi. Ela sorriu com tamanha naturalidade que a vida poderia ter terminado ali. A vida dos dois poderia ter terminado no instante daquele sorriso e do lindo encontro entre finais. Depois da dor de cabeça do último porre, a vida parecia enfim ter alcançado o estado de ataraxia - seria, por fim, a paz tão desejada? Desejo muito que seja. Acredite em mim, ela é tão bonita quando sorri sem jeito. Uma vez me disse, quando a perguntei do porquê da expressão sempre tão séria, que a vida a fez desaprender a sorrir. Ela tem um jeito de mover os lábios que parece voltar a ser uma criança boba brincando com os cachorros. Tenta carregar o mundo nas mãos mesmo quando atinge a amnésia alcoólica. Sente vergonha todas madrugadas. Procura em camas alheias o carinho que mendiga - veja, mesmo com a suposta aparência de independência que a cerca, às vezes ela só quer encontrar um canto para chamar de seu. Um pouco de carinho - não, nem amor ela ousa pedir. Carinho. Acolhimento. Braços quentes no fim de um dia exaustivo. Em dias ímpares, em que a vida parece ser menos pesada, me diz que felicidade não existe - não sei, também, ao certo o que existe e o que é sonho compartilhado por desconhecidos. Disseram que sonharam com ela - veja como a linha entre o real e imaginário é sempre tão tênue. No sonho, ela já estava em outra cidade - previsível como urinol de Duchamp. Ela migra tanto em busca de algo que nunca vai encontrar que, quando ela senta e assume sua derrota, só tenho a dizer que é isso. Nunca se encontrará o que não existe, e para ela, tudo que quer encontrar é uma alma calma, é um sentimento, você entende? De estar bem, de estar calmo. A vida dela é tão non-sense e eu só queria registrar o sorriso, já me prolonguei demais.
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