quarta-feira, 23 de abril de 2014
Moça de Brueghel
De longe sussurram que ela é louca. Tem cara de estar sempre bêbada. Despenteada, sem ânimo. Apática. Mensagens dizem para não fazer nenhuma loucura - pasmem! Não deve existir loucura maior do que viver neste mundo. Com um pássaro azul preso no peito. Ela - coitada!- também prefere dar um vinho barato e fumaças a ele - não quer que ninguém o veja, como Bukowski fez. Como será quando ela ou alguém conseguir soltar esse pássaro? Terá então o grande êxtase de um nascimento real? Há tempos a nossa protagonista já desistiu de se adequar, hoje, só sente preguiça. Preguiça de tudo - desse riso sonso da maioria das pessoas, dessa tentativa surreal de vender a alma para ser aceita. Dos demônios mortos um a um em nome de um modelo social. Todos tão iguais e padronizados. Ah, não há graça em viver! Esse maldito tripé. Sente preguiça da rotina. Das decorebas bobas e desnecessária. Ela, meu deus, já preferiu aceitar o mundo da sua cabeça.O mundo de poetas loucos e bêbados. Sem alma e sem amor. O mundo em que vê Woolf caminhando sobre o rio com seu casaco e sua pedra - a única experiência que nunca pode descrever. O que houve após a água queimar os seus alvéolos? Será que Woolf se manteve calma enquanto se despedia do mundo orgânico? E céu e inferno, será que existe, amigo? Sabe, às vezes tenho a impressão que ela é a moça do violino no quadro de Brueghel - tal como na tela, ela também não vê e não ouve a carnificina da vida. Viver às vezes incômoda, seria melhor ser algum sonho perdido de vez em quando. Deitar e não ouvir mais nada. Não ver. Não participar desse espetáculo que a vida. Viver incômoda, é um sono perpétuo. Principalmente quando se sente um naufrago. Às vezes, ela sente vontade de invadir mentes alheias só para saber o que se sente quando se encaixa. Quando sabe com convicção que está no lugar certo, no momento certo. Saber como é se sentir completo.
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