Acordei no meio da noite. Assustado. Por certo tempo perdi meu tripé: não sabia onde estava. Um universo paralelo no meio de paredes assustadoramente brancas. Ângulos retos. Seria um manicômio? Não havia relógios ou lembretes, as horas desconhecidas. Toquei o corpo - com o tato reconheci as moléculas que me formam. Bem, pensei, não acordei metamorfoseando como Gregor Samsa. Às vezes, tenho vergonha de admitir, possuo medos tão infantis e me vêm uma vontade de escrever assim, do nada, justo quando a rotina medíocre me obrigaria a abdicar o ócio e trabalhar. Finjo, eu, então, nessas horas de distração frente ao próximo compromisso desinteressante, que sou um homem de muitas histórias e talentos. Um futuro poeta, talvez. As mãos mórbidas já as tenho. Vergonha. Apenas mais um comum nessas cidades espantadoramente cinzas - concreto mais que pessoas, como fomos parar neste estado? Tenho que por no papel, sinto que tenho, na verdade, não vejo ninguém por aqui - durmo e acordo, não sei o que é real, tudo passa como filme. Sem toque. Estou perdido - disse, anteriormente, sobre medos infantis. Desses medos tolos. Luz apagada. Barulhos no meio dessa madrugada, na cozinha. Não conseguir aguentar o dia seguinte. Você entende? Quero a liberdade. A mesma liberdade que senti quando você veio me visitar e me disse com todas as letras e intonações possíveis que sou um caso perdido. Caso perdido. Caso acertado. Quem enquadrou tudo isso? Também não sei. Na minha cabeça um show de coisas aleatórias vêm: Notas, bocas, pernas, compromissos. Cigarros. De cravo ou não? Parar de fumar. Coisas irreais. Livreto de viagens - transformar a vida de um pobre medíocre como eu em um João Miramar. Nostalgias vem como gravatas que encontro espalhadas pelo quarto. Ninguém disse que tudo isso é fantasia - nem mesmo eu. Em tempos de desordem generalizada, não há mais distinções sobre o que somos e sobre o que aparentamos ser. Mais café. Produzir, produzir. Ó vida de cão. Diabo, essa rotina é uma violência.
No quarto branco fingimos construir nossa história.
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